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sábado, 1 de novembro de 2008

Quando me amei de verdade

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.

E, então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome...

Auto-estima.





Quando me amei de verdade, pude perceber que a minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra as minhas verdades.

Hoje sei que isso é...

Autenticidade.





Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente
e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.

Hoje chamo isso de...

Amadurecimento.





Quando me amei de verdade, comecei a perceber

como é ofensivo tentar forçar
alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.

Hoje sei que o nome disso é...

Respeito.





Quando me amei de verdade, comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável ... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo.
De início, minha razão chamou essa atitude de egoísmo.

Hoje sei que se chama...

Amor-próprio.





Quando me amei de verdade, deixei de temer meu tempo livre e desisti de
fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.

Hoje sei que isso é...

Simplicidade.





Quando me amei de verdade, desisti de querer ter sempre razão e, com isso, errei menos vezes.

Hoje descobri a...

Humildade.





Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de me
preocupar com o Futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.

Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é...

Plenitude.





Quando me amei de verdade, percebi que a minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando eu a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.

Tudo isso é....

SABER VIVER!





“Não devemos ter medo dos confrontos...
Até os planetas se chocam e do caos nascem as estrelas.”



(Charles Chaplin)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Pensar é Ser!!

Um sábio escreveu que "o mais infeliz dos homens é aquele que assim se julga, porque a desgraça depende menos das coisas que sofremos do que da imaginação com que aumentamos a própria infelicidade". O mais infeliz dos homens é aquele que assim se julga. Uma grande verdade, porque felicidade e infelicidade são estados mentais, e não os acontecimentos, em si, que fazem uma pessoa feliz ou infeliz, mas a idéia que essa pessoa faz desses acontecimentos. Uma outra frase diz: "os tristes dizem que os ventos gemem; os alegres acham que os ventos cantam".Tudo é questão de ética mental. Você vê e sente através da mente. Pode ser que tenha errado, feito besteiras, fracassado, mas ninguém é infalível ou perfeito. Mas ao invés de ficar aí se lamentando pelos cantos da casa, ou pelos consultórios psiquiátricos, levante a cabeça, corrija a direção do seu barco e siga em frente. Ficar se lamentando é uma maneira de perder tempo e vida.
Siga em frente. As vezes, o barco bater num galho de árvore, sofre o atrito de um banco de areia, choca-se com outro barco, mas seguindo em frente você somente ficará com a parte boa do acontecido, que é a lição para acertar melhor o roteiro e a certeza de que está chegando sempre mais próximo do objetivo.
Se for adiante, poderá acertar a rota. Se ficar parado, a chorar o leite derramado, jamais chegará onde deseja.
Por todas essas considerações, você percebe que a sua mente faz a sua felicidade ou infelicidade, o sucesso ou a depressão, enfim a sua vida.
Preste bem atenção ao conteúdo das suas reflexões diárias sobre os fatos e situações, pois aí está a explicação do que lhe acontece. Se vive se queixando da vida, achando que não adianta fazer nada, vendo fantasmas e demônios por toda parte, sua vida irá de mal a pior, pois o que você planta na mente, colhe na realidade. Inunde sua mente, a sua alma, o seu coração, com a energia da felicidade.
Proclame interiormente a felicidade, imagine-se feliz e verá que esta causa mental trará consigo o efeito correspondente.
Pensar é ser...

***Enviada por uma amiga...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Exercitar a Vontade Naquilo que Podemos Ter de Melhor


Ponho-me a pensar na quantidade dos que exercitam o físico, e na escassez dos que ginasticam a inteligência; na afluência que têm os gratuitos espectáculos desportivos, e na ausência de público durante as manifestações culturais; enfim, na debilidade mental desses atletas de quem admiramos as espáduas musculadas. E penso sobreutdo nisto: se o corpo pode, à força de treino, atingir um grau de resistência tal que permite ao atleta suportar a um tempo os murros e pontapés de vários adversários, que o torna apto a aguentar um dia inteiro sob um sol abrasador, numa arena escaldante, todo coberto de sangue - não será mais fácil ainda dar à alma uma tal robustez que a torne capaz de resistir sem ceder aos golpes da fortuna, capaz de erguer-se de novo ainda que derrubada e espezinhada?! De facto, enquanto o corpo, para se tornar vigoroso, depende de muitos factores materiais, a alma encontra em si mesma tudo quanto necessita para se robustecer, alimentar, exercitar. Os atletas precisam de grande quantidade de comida e bebida, de muitos unguentos, sobretudo de um treino intensivo: tu, para atingires a virtude, não precisarás de dispender um tostão em equipamento! Aquilo que pode fazer de ti um homem de bem existe dentro de ti. Para seres um homem de bem só precisas de uma coisa: a vontade.

Em que poderás exercitar melhor a tua vontade do que no esforço para te libertares da servidão que oprime o género humano, essa servidão a que até os escravos do mais baixo estrato, nascidos, por assim dizer, no meio do lixo, tentam por todos os meios eximir-se? O escravo gasta todas as economias que fez à custa de passar fome para comprar a sua alforria; e tu, que te julgas de nascimento livre, não estás disposto a gastar um centavo para garantires a verdadeira liberdade?! Escusas de olhar para o cofre, que esta liberdade não se compra. Por isso te digo que a «liberdade» a que se referem os registos públicos é uma palavra vã, pois nem os compradores nem os vendedores da alforria a possuem. O bem que é a liberdade terás tu de dá-lo a ti mesmo, de o reclamar a ti mesmo! Liberta-te, para começar, do medo da morte (já que a ideia da morte nos oprime como um jugo), depois do medo da pobreza. Para te convenceres de que a pobreza não é em si um mal bastar-te-á comparares o rosto dos pobres com o dos ricos. Um pobre ri com mais frequência e convicção; nenhuma preocupação o aflige profundamente; mesmo que algum cuidado se insinue nele depressa passará como nuvem ligeira. Em contrapartida, aqueles a quem o vulgo chama «afortunados» exibem uma boa disposição fingida, carregada, contaminada de tristeza, e tanto mais lamentável quanto, muitas vezes, nem sequer podem mostrar-se abertamente infelizes, antes se vêem forçados, entre desgostos que lhes roem o coração, a representarem a comédia da felicidade!

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

"Depoimento de Rita Lee"

"Eu tinha 13 anos, em Fortaleza, quando ouvi gritos de pavor.
Vinham da vizinhança, da casa de Bete, mocinha linda, que usava tranças. Levei apenas uma hora para saber o motivo. Bete fora acusada de não ser mais virgem e os irmãos a subjugavam em cima de sua estreita cama de solteira, para que o médico da família lhe enfiasse a mão enluvada entre as pernas e decretasse se tinha ou não o selo da honra. Como o lacre continuava lá, os pais respiraram, mas a Bete nunca mais foi à janela, nunca mais dançou nos bailes e acabou fugindo para o Piauí, ninguém sabe como, nem com quem.

Eu tinha apenas 14 anos, quando Maria Lúcia tentou escapar, saltando o muro alto do quintal da sua casa para se encontrar com o namorado. Agarrada pelos cabelos e dominada, não conseguiu passar no exame ginecológico. O laudo médico registrou vestígios himenais dilacerados, e os pais internaram a pecadora no reformatório Bom Pastor, para se esquecer do mundo. Realmente; esqueceu, morrendo tuberculosa. Estes episódios marcaram para sempre e a minha consciência e me fizeram perguntar que poder é esse que a família e os homens têm sobre o corpo das mulheres?

Ontem, para mutilar, amordaçar, silenciar. Hoje, para manipular, moldar, escravizar aos estereótipos. Todos vimos, na televisão, modelos torturados por seguidas cirurgias plásticas. Transformaram seus seios em alegorias para entrar na moda da peitaria robusta das norte americanas. Entupiram as nádegas de silicone para se tornarem rebolativas e sensuais, garantindo bom sucesso nas passarelas do samba.

Substituíram os narizes, desviaram costas, mudaram o traçado do dorso para se adaptarem à moda do momento e ficarem irresistíveis diante dos homens. E, com isso, Barbies de facaria, provocaram em muitas outras mulheres - as baixinhas, as gordas, as de óculos - um sentimento de perda de auto-estima. Isso exatamente no momento em que a maioria de estudantes universitários (56%) é composta de moças. Em que mulheres se afirmam na magistratura, na pesquisa científica, na política, no jornalismo. E, no momento em que as pioneiras do minismo passam a defender a teoria de que é preciso feminilizar o mundo e torná-lo mais distante da barbárie mercantilista e mais próximo do humanismo.

Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade. Até porque elas são desarmadas pela própria natureza. Nascem sem pênis, sem o poder fálico da penetração e do estupro, tão bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas e punhais. Ninguém diz, de uma mulher, que ela é de espadas. Ninguém lhe dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade e violência. As mulheres detestam o sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na menstruação ou no parto.

Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua convivência e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violência. É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz. E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam latas d'água e trouxas de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o país nas costas.

São as mulheres que irão impor um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer à ternura de suas mentes e a doçura de seus corações. "Nem toda feiticeira é corcunda. Nem toda brasileira é só bunda.“

Texto: "Rita Lee"

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

CONTAGEM REGRESSIVA: 2008...

Olá!!
Que a partir de agora, comece uma nova contagem regressiva para o ano que se aproxima, para as novas escolhas que faremos, para novos amores ou simplesmente para a renovação do antigo amor... Que possamos ver além da aparência e acreditar que tudo é perfeito e sempre será.
Sejamos felizes... a vida passa rápido. Aproveitemos bem nossos momentos, os dias de sol. os dias de chuva, com amizade, amor e perfeição na medida que aconteçam, e não necessáriamente nessa ordem...São meus votos para esse novo ano...
Beijos e FELIZ ANO NOVO!!!

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A recuperação (parte 4)

Foi lenta sua recuperação. Era necessário calma pois a reabilitação completa dessa mulher forte, dependia exclusivamente da boa alimentação, remédios e vontade.
Embora sua voz temporariamente fosse apenas uma vaga lembrança, logo virou um sussurro quase que inaudível para , algum tempo depois desabrochar novamente. A luta foi contínua e árdua.
Houve momentos de lutas e glória na vida deles. Ainda há, pois enquanto houver vida haverá lutas...
Logo depois ao nascimento do Felipe fomos morar sozinhos. O bairro era afastado, ficando longe tanto de uma sogra quanto de outra. Achávamos que com isso aprenderíamos a nos conhecermos melhor e a cuidarmos do sozinhos e do nosso jeito.
Vivíamos razoavelmente bem, mas o ciúme e a desconfiança rondavam o meu coração. Por mais que eu amasse o Alexandre, sempre via com desconforto o quanto ele era diferente de mim, e não entendia como poderia acontecer isso. Havia ainda para mim a possibilidade dele ter herdado hábitos de seu pai, que era mulherengo, alcoólatra e jogador compulsivo.
Não raramente me pegava pensando se ele não seria assim também, principalmente mulherengo.
Passei a ser uma pessoa obcecada por seu dia a dia. Telefonava várias vezes e em horas alternadas para que ele não soubesse da intenção que tinha de pegá-lo em algum deslize. Mas é claro que ele já sabia. Tínhamos discussões horríveis. Nos atacávamos verbalmente e constantemente, eu mais que ele. Não sei como sobrevivemos àquela época. Apenas uma explicação encontro para estarmos juntos até hoje: Seu grande amor por mim.
Eu era tão insuportável quanto minha mãe e minha irmã Ana eram com seus maridos.
Não sei a que horas, nem mesmo a partir de que momento comecei a perceber a semelhança sutil, ou não tão sutil assim, que existia entre nós, mas me lembro de ter pensado um dia, conversando com meu irmão Nilton, que precisava mudar para meu próprio bem e para o bem do Felipe e de meu marido. Aliás ele nunca me dava motivos para imaginar aquelas coisas que só faziam parte de minha cabeça. Ele saia de casa para trabalhar e voltava sempre nos horários programados. Não havia motivos para todo aquele sofrimento. Toda aquelas discussões que não levava a nada... Apenas mágoas.
Outro dia li uma frase que dizia assim: "Na vida há poucas alegrias e muitas desilusões...".
Não concordo com isso totalmente. Diria que a vida é feita com o tempero que você usa. Sem saber, naquela época comecei a usar os temperos certos para que não fosse minha vida nem tão triste, e nem tão solitária.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

**Prá tudo se dá um jeito...3**

Por incrível que pareça diante de tantos receios que tinha ao revelar ao Alexandre e principalmente ao meu pai que seriam pai e avô respectivamente, a expectativa de ser mãe era realmente o maior dos receios e os outros deixavam quase de existir.
Minha família recebeu a notícia creio eu, melhor que os pais dele, em especial sua mãe Tania, que praticamente criou seus três filhos sozinha tendo apenas a ajuda constante de seu próprio filho mais velho, que era o Alexandre. Meu sogro chorou quando soube que seria vovô, mas minha sogra disse que seria no máximo titia, pois não tinha ainda idade para ser avó.
Jamais poderei explicar o quanto nos magoamos com essa frase feita em tom de brincadeira em meio aos meus familiares. Jamais esquecemos desse detalhe, mesmo quando o Felipe nasceu e até os dias de hoje. Com isso aprendemos desde cedo o quanto não dizer nada vale ouro, quando não se tem nada de bom para se dizer...
Isso rendeu inimizades e desprezos futuros...Que poderia ter sido obviamente evitado.
Recentemente soube que meu irmão mais velho foi amamentado pela primeira vez por minha avó materna. Minha mãe me contou que isso fez com que o Carlos não aceitasse mais o peito, e assim minha vó insistia para que seu neto fosse deixado com ela para que pudesse cuidar dele melhor. É claro que minha mãe não aceitou, o que a ofendeu muito. A conclusão disso é que meu irmão teve que tomar mamadeira, pois não aceitava o peito de minha mãe, e talvez por isso tenha sofrido tanto logo mais.
O Carlos sempre foi inteligente e amoroso. Aos 12 anos montou um rádio praticamente sozinho. Feito grande para um menino que vivia num sítio longe da cidade grande. Mas lodo abandonou o curso por correspondência que fazia de eletrônica e foi trabalhar. Sempre trabalhador, não teve tempo de se ater aos estudos. Logo se casou, pois sua namorada estava grávida, isso tudo no finzinho da década de 70, quando ainda era um terror se casar grávida e imperdoável não se casar diante do fato. Maria sempre foi pau pra toda obra, mas era muito jovem quando se casou. Infelizmente a imaturidade vem acompanhada com erros gravíssimos quando outros dependem de nossa inteligência emocional que tanto se prega abertamente hoje em dia. Tiveram uma filha, a Lia e um filho, Jim. Quando se casaram moraram com a mãe dela por um tempo e depois foram morar com meus pais. Eu era pequena, mas ainda me lembro das discussões entre eles. Dizem que crianças não se lembram de quase nada antes dos seis anos, mas não é totalmente verdade. Meu marido, por exemplo, diz se lembrar de todas as vezes que seus pais se agrediam verbalmente ou até fisicamente. Já um primo seu achou melhor apagar da memória como se não tivesse acontecido com ele, já que seus pais viviam em condição igual ao dos pais do Lê.
Lembro-me de coisas, situações, cheiros, expressões peculiares que me fazem ter a recordação intensa de ontem. Algumas delas me fazem chorar. Outras me fazem rir. Todas elas me marcaram de certa maneira para sempre...
Ainda me lembro que Maria fazia esporadicamente as unhas das mulheradas perto de casa e Lia era apenas um bebezinho que comia papinha de frutas, dessas compradas em farmácias e supermercados. Uma vez inclusive fiquei impressionada ao ver como ela sugava o seio de Maria. Achava impossível que alguém pudesse gostar daquilo. “Leite humano, Blargh!”. Maria então tomou uma solução drástica: espirrou o leite em mim. Jurei ódio eterno a ela, que ria largamente com seu jeito de menina mulher. Bons tempos aqueles em que meu coração não conhecia o rancor nem a mágoa, apenas o amor por todos ali.
Meu casamento então foi uma maravilha. Meu irmão Nilton me deu uma festa em uma casa onde havia até mesmo uma piscina. Vejam só. Foram padrinhos todos os meus irmãos e alguns tios de outra cidade. Depois de tudo, fomos morar na casa dos pais dele, isto é, nos fundos, o que chega a dar no mesmo. Moramos ali até que o inquilino saísse da casa que sua mãe possuía em um bairro afastado tanto de meus pais quanto dos pais dele. Passei a gravidez toda passando mal e não me lembro de ter ficado mais que o necessário naquela casa enquanto transcorria minha gravidez. A maior parte dos dias ia para a casa de meus pais que naquela época cuidava dos filhos de minha irmã Ana, pois ela sofria de esquizofrenia, e ainda hoje toma medicamentos fortíssimos.
Tenho muita pena dessa minha irmã. Ela fez tudo o que podia para se casar com Oswaldo. Tudo mesmo, menos perder a virgindade. E olha que ela já tinha 27 anos. Como tenho certeza? No dia seguinte ao casamento entra em nossa casa uma Ana transtornada. Dizia que seu marido não havia sido tão delicado e que estava sangrando e com muita dor. Aparentemente ele não acreditou ser o primeiro homem dela. E aparentemente começa ali uma das maiores causas de seus problemas emocionais. A incompreensão, a revolta e o medo que se instalou nela de tomar uma atitude com o passar do tempo.
Quando ela teve seu primeiro filho o Breno, ficamos sabendo por um vizinho que freqüentemente ela apanhava do meu cunhado. Ao ser perguntado se era verdade ela respondeu que a culpa era dela, pois sentia ciúmes do marido e não queria que ele conversasse com ninguém ou saísse de casa sem ela.
Aí podemos ver como são as coisas. Não dá para saber exatamente o que realmente acontecia, mas sabemos que tudo levou a uma degradação física e moral dessa pessoa que antes era uma das mais lindas moças que haviam por aquelas bandas. Trabalhava em uma grande loja, sempre maquiada e com roupas caras feitas sob medida. Seu futuro com certeza era muito promissor. Quando começou a namorar meu cunhado, achou que era perfeito. Alguns meses depois começou a desconfiar que ele estava saindo com outra. Como ela tinha certeza, minha mãe me disse para ir com ela um dia atrás do Oswaldo e qual não foi a surpresa quando o vimos aos beijos com uma viúva que morava logo ali pertinho de casa. Terminaram então por uma semana mais ou menos. Até que ele foi conversar com ela e jurou que havia terminado seu relacionamento com a viuvinha.
Ela acreditou, mas ficou no seu pé a espera de um deslize.
Sobre isso tenho que dizer que nunca entendi direito. Nem mesmo hoje entendo. Se ela não acreditava mais nele acho que seu orgulho a fez aceitar se casar, e ir a lugares em busca de ajuda como, por exemplo, macumbeiras e benzedeiras. Ninguém em casa concordava com ela, na época todos éramos católicos fervorosos, então achávamos errado atingir um objetivo dessa maneira, mesmo que o objetivo em si fosse aparentemente a felicidade própria.
A verdade é que tínhamos medo que o feitiço virasse contra o feiticeiro. Dito e feito.
Minha irmã teve 3 filhos. Quase que um atrás do outro. Ela não tinha condições de se lembrar de tomar os cuidados sozinha para que evitasse engravidar. Meu cunhado nunca ligou para isso. Breno era lindo e gordo. Parecia um bonecão. Brincalhão e fofo. Depois veio a Patrícia que era linda como a descrição da branca de neve, só que seus cabelos eram mais claros. Por fim nasceu a Raila pequena e frágil... Chorava sem parar quando era bebê. Se tornou uma moça responsável e bela hoje. Aliás, os três para mim são vencedores. Agradeço muito a eles, pois a noção que tenho de ser mãe, devo muito aos dias em que enquanto minha irmã estava internada em uma “clínica de repouso”, cuidei deles juntamente com minha mãe. Estava grávida de meu primeiro filho então, mas minha alegria era todos os dias chegar à casa de meus pais e ver aqueles rostinhos. Eles nos chamavam de três patetas, como no filme. Mas ali éramos quatro. Meu pai, minha mãe, meu irmão Nilton e eu. Éramos realmente patetas por eles e faríamos qualquer coisa por esses três, sempre.
Depois de meu nascimento minha mãe não via fim às visitas aos médicos. Sempre fazendo exames e esperando o melhor momento de se fazer a operação, que muito ela temia. Precisaria ser feita em São Paulo, o que dificultava muito, pois não tinha quem ficasse com as crianças. Meu pai precisaria ir com ela e, a bem da verdade nenhum dos dois sabiam como chegar no hospital.
Foram dias e semanas sem fim esperando que o dia chegasse. E quando chegou o dia, pegaram um ônibus para São Paulo, levando consigo o pouco dinheiro que conseguiram juntar durante meses para esse dia tão temível.
Chegando lá, tiveram que ir a um posto do Inps, pois no hospital foram informados que a internação seria apenas na manhã seguinte. Nem mesmo posso imaginar qual não foi o desespero por não terem dinheiro suficiente para alugarem um quarto ou comerem algo, pois o dinheiro daria apenas para que meu pai voltasse daquela grande cidade. Em meio a tudo isso, encontraram um rapaz gentil que sabendo o que passavam naquele momento, tirou de sua carteira dinheiro suficiente para que passassem a noite e fizessem uma refeição em uma pensão perto do hospital. Meu pai diz até hoje com lágrimas nos olhos que se voltasse a ver aquele homem, lhe mostraria o quão bondoso havia sido naquele dia. Esse homem, um simples desconhecido fez por eles o que mais ninguém conhecido na época se propôs a fazer. Com o dinheiro então, alugaram um quarto muito simples e comeram pela primeira vez aquele dia: uma sopa ralíssima que mais parecia apenas caldo. Passaram frio pois ali tinham apenas lençóis, e ao acordarem foram direto ao hospital, onde minha mãe ficou por quase dois meses a espera que meu pai fosse buscá-la.
Enquanto ela lá se recuperava da operação onde foi retirado todo o osso do queixo e no lugar colocado uma prótese de silicone, aqui a vida estava difícil. Meu pai não conseguia juntar o dinheiro para as passagens, e, para complicar, fiquei doente e precisei de remédios e cuidados extras. Por mais de uma vez precisou durante aqueles dois meses dispor do dinheiro por causa da casa, de remédios e alimentação. Por muitas vezes chorou e clamou a Deus para que o ajudasse a ter forças. Por muitas vezes ele achava que a ajuda não viria...
Minha mãe ficava a maior parte do tempo só, a não ser esporadicamente quando vez ou outra um paciente ficava por ali junto no mesmo quarto. Todos se sensibilizavam sabendo da situação em que vivíamos aqui em nossa cidade, e brincavam com ela dizendo que meu pai não iria mais buscá-la. Ela não se chateava, mas tinha muito medo que a mandassem embora dali por já estar bem, e se isso acontecesse para onde iria?
Passou-se então dois meses e meu pai foi recebido com festa no hospital. Todos ficaram felizes ao verem minha mãe partir, e aqui ficamos felizes ao vermos seu retorno.